Pinça esquecida em cirurgia leva à investigação de morte em João Pinheiro
O filho de Manoel Cardoso de Brito, idoso que morreu após duas cirurgias no Hospital Municipal de João Pinheiro, afirma que tentou obter os laudos das tomografias do pai depois de receber uma denúncia sobre o possível erro médico, mas não conseguiu.
Manoel faleceu no dia 24 de dezembro, véspera do Natal e um dia antes de completar 69 anos. A família acusa a unidade de saúde de ter esquecido uma pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente, fato que só veio à tona após o óbito.
Em nota pública, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pinheiro confirmou que houve a retirada de um corpo estranho durante a cirurgia do paciente e alegou que Manoel estava em estado grave, com várias comorbidades. A pasta informou ainda que reforçou protocolos de segurança e notificou a abertura de sindicância para apuração rigorosa do caso. Leia mais abaixo.
O g1 questionou a pasta sobre a negativa de apresentar os laudos à família, mas não houve resposta até a última atualização da reportagem.
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Segundo Samuel Cardoso Rezende de Brito, de 31 anos, o hospital teria negado acesso aos exames mesmo após ele ter ido pessoalmente solicitar os laudos.
"Antes de meu pai vir a óbito, eu recebi uma chamada de uma fonte segura que tinha falado para mim que, supostamente, tinham esquecido uma tesoura dentro do meu pai. Mas até então eu não acreditava. Aí essa pessoa falou para eu ir lá e pedir a tomografia, de antes e depois da cirurgia do meu pai pra saber. Eu fui verbalmente pedir e até hoje não entregaram o laudo".
Filho do paciente diz que médico falou que havia esquecido dreno
Samuel relatou ainda que, após a segunda cirurgia, foi chamado ao hospital para conversar com o médico responsável.
"Eles me ligam e falam que o doutor queria conversar comigo. E lá eles falam que precisaram fazer a segunda cirurgia porque meu pai estava com pus. Aí eu perguntei para o doutor qual foi a causa desse pus. E ele falou 'é que esqueceram um dreno dentro dele'. Eu já estava com a cabeça ruim por tudo o que estava acontecendo com meu pai, e para mim era algo normal", disse.
Segundo Samuel, ele não associou que o dreno mencionado poderia ser um instrumento hospitalar e afirma que a equipe não deu detalhes sobre o procedimento, nem sobre o objeto retirado.
Paciente ficou 13 dias internado
De acordo com o Boletim de Ocorrência (BO), Manoel passou por uma cirurgia de urgência no dia 5 de dezembro, após ser internado com uma úlcera gástrica. A equipe médica informou que o procedimento havia transcorrido normalmente. O paciente permaneceu dois dias na UTI e depois foi transferido para o quarto.
Durante a internação, o filho foi visitá-lo e percebeu que o pai estava com dificuldade de se alimentar. A cuidadora também relatou que Manoel apresentou sinais de dor e sonolência excessiva. Foi então que Samuel pediu para ela questionar o quadro na próxima visita do médico ao paciente.
Foi então que no dia 11 de dezembro, foi feita a tomografia. Logo depois, segundo relato dos familiares, profissionais chegaram ao quarto de forma apressada e levaram o paciente para uma nova cirurgia, sem explicar os motivos e sem solicitar autorização formal da família.
"Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar. Não chegou a pedir ela pra ir, nem para comunicar a família", contou o filho do paciente, Samuel Cardoso Rezende de Brito.
Depois da segunda cirurgia, Manoel voltou para a UTI. Ele ficou 13 dias internado, mas não resistiu e morreu.
Samuel acredita que o pai poderia estar vivo se não fosse o suposto erro médico e necessidade de segunda cirurgia.
"Eu fiquei sem chão. Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente", lamentou.
Tomografia mostrou pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente após cirurgia em João Pinheiro
Rádio Nova FM/Arquivo Pessoal/Reprodução
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O que disse a Prefeitura de João Pinheiro
"A Secretaria Municipal de Saúde e a Administração Pública Municipal vêm, por meio desta, prestar esclarecimentos a respeito do falecimento do Sr. Manoel Cardoso de Brito, ocorrido no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. O referido paciente deu entrada no hospital no dia 05 de dezembro de 2025, encaminhado pela UPA, apresentando quadro grave de vômitos com sangramento, associado a sequelas neurológicas importantes e rebaixamento do nível de consciência. Nessa ocasião, foi identificado um corpo estranho na cavidade abdominal. Imediatamente, a acompanhante foi comunicada da necessidade de reabordagem cirúrgica, sendo o paciente prontamente encaminhado ao centro cirúrgico.
Durante o segundo procedimento, não foi constatada perfuração de alça intestinal, e as suturas do procedimento anterior encontravam-se íntegras. O procedimento foi realizado sem intercorrências adicionais. No dia seguinte, a família foi novamente informada sobre o procedimento realizado, bem como sobre a identificação e retirada do corpo estranho.
Ressalta-se que o paciente deu entrada na unidade hospitalar em estado clínico extremamente debilitado, com quadro infeccioso já instalado, idade avançada e histórico de cardiopatia, diabetes, arritmia cardíaca e graves sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), condições que contribuíram significativamente para a evolução do quadro e para o desfecho ocorrido. Ao tomar conhecimento dos fatos, a Direção Administrativa e Técnica do Hospital adotou imediatamente todas as providências cabíveis, incluindo a notificação de evento adverso, a apuração das barreiras de segurança, o reforço dos protocolos de segurança do paciente, bem como a notificação à ANVISA, para instauração de sindicância e apuração rigorosa dos fatos. Também foi realizada reunião com toda a equipe cirúrgica, com registro em ata das medidas adotadas.
Por fim, o Município manifesta sua solidariedade aos familiares e reafirma que permanece à disposição para prestar toda a assistência necessária, bem como para fornecer esclarecimentos adicionais, sempre pautado pela ética, responsabilidade e compromisso com a saúde pública."
Samuel Cardoso com o pai Manoel
Arquivo pessoal
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Publicada por: RBSYS